Pular para o conteúdo
Mulher e homem pedalando bicicletas elétricas em uma ciclovia de São Paulo ao pôr do sol, com a Ponte Estaiada e prédios da cidade ao fundo.
Elétricas » Meu marido disse que eu estava louca. Hoje ele pede a minha e-bike emprestada todo dia

Meu marido disse que eu estava louca. Hoje ele pede a minha e-bike emprestada todo dia

Meu marido disse que eu estava louca, quando anunciei que ia comprar uma bicicleta elétrica para ir ao trabalho, meu marido me olhou com a expressão de quem está segurando uma fala. Ele segurou por uns três segundos. Depois deixou escapar, devagar, como quem recalibra o volume antes de falar: “Você vai pedalar 13 km no trânsito de São Paulo. Todo dia.”

Não foi uma pergunta.

Ele estava tentando me proteger da minha própria ideia. Eu entendia isso. São Paulo treina seus moradores durante anos para acreditar que rua é perigosa, que ciclista está sempre em desvantagem, que misturar bicicleta com carro em hora de pico tem um desfecho previsível. Ele não estava errado sobre o risco. Estava errado sobre o quanto eu já havia pesado aquele risco antes de abrir a boca.

Respondi que ia tentar por um mês. Ele concordou com o tipo de concordância que na prática significa: vou deixar você aprender por conta própria. Comprei a bike na semana seguinte. Hoje, seis meses depois, ele me acorda às 6h40 para perguntar se eu vou usar a e-bike ou se pode ficar com ela para ir até a academia.

O que mudou não foi só o transporte. Mudou a forma como nós dois enxergamos a cidade onde moramos há quatro anos sem nunca ter parado para observar de verdade. A e-bike nos devolveu São Paulo.

A resistência não era irracional era memória acumulada

Durante anos, São Paulo ensinou a gente da mesma forma: carro na via, bicicleta no parque no domingo de manhã, de preferência em ciclovia demarcada, acompanhado de alguém, com capacete e colete refletivo. A cidade era hostil a quem quisesse pedalar por necessidade real, não por lazer de fim de semana. E meu marido havia internalizado essa hostilidade não como preconceito, mas como dado empírico o tipo de conclusão que você tira depois de anos vivendo em um lugar e observando o que acontece com quem sai fora da norma.

Ele não estava completamente errado. Mas estava desatualizado.

São Paulo tem hoje mais de 900 km de ciclovias e ciclofaixas. Não são 900 km perfeitos, bem iluminados e impecavelmente conectados longe disso. Quem pedala aqui sabe que a infraestrutura ainda é irregular, que alguns trechos parecem ter sido projetados por alguém que nunca sentou em uma bicicleta de verdade e que certos cruzamentos são um exercício de fé antes de atravessar. Mas são 900 km que simplesmente não existiam há dez anos. E esses 900 km permitem traçar rotas razoavelmente protegidas por boa parte da cidade desde que você esteja disposto a pesquisar e a aprender o trajeto com calma.

O meu percurso de 13 km usa ciclovia em 9 km e ciclofaixa em outros 3 km. Apenas 1 km é em via compartilhada com carro e é um 1 km que aprendi a administrar nas primeiras duas semanas de uso diário.

Isso muda tudo. Não elimina o risco todo, mas muda o risco o suficiente para que a pergunta “vale a pena tentar?” deixe de ser retórica e passe a ter uma resposta concreta.

A infraestrutura de ciclovias em São Paulo não é perfeita. Mas já é suficiente para mudar a vida de quem ousa colocar à prova.

O que acontece quando você para de calcular e começa

Na primeira semana, fui devagar. Não por insegurança com a bike em si a assistência elétrica ao pedal muda completamente a experiência de quem não pedalava com regularidade, e aprender a usar os diferentes níveis de assistência levou menos tempo do que eu esperava. Fui devagar porque queria conhecer o trajeto antes de me sentir à vontade nele. Tinha receio de descobrir algum trecho que eu não havia previsto no mapa.

Aprendi, então, o que os mapas não mostram.

Aprendi onde ficam os semáforos que não têm fase exclusiva para bicicleta. Os cruzamentos onde o motorista vira à direita sem checar o espelho. O trecho onde a ciclovia desaparece por duas quadras sem nenhum aviso e você precisa tomar uma decisão rápida sobre continuar pela calçada ou dividir o espaço com o carro. A hora do dia em que o sol bate de frente na descida e a sombra some exatamente onde o asfalto é mais irregular.

É um repertório que se acumula depressa. Em duas semanas, eu já sabia onde acelerar e onde reduzir. Sabia qual rua lateral compensa cruzar para evitar um trecho problemático. Sabia onde a ciclofaixa fica mais apertada às 8h da manhã por causa dos carros parados em fila dupla esperando a vaga do estacionamento abrir.

Não contei tudo isso ao meu marido naquele período. Não porque fosse esconder ele sabia que eu prestava atenção, que chegava em casa com histórias do percurso. Mas havia uma parte daquele processo que era só minha. A repetição foi fazendo o que sempre faz: transformou o desconhecido em rotina. E a rotina, aos poucos, em confiança real.

Na terceira semana, ele perguntou, meio de lado, com o cuidado de quem não quer parecer que mudou de opinião, se eu topava “dar uma volta no domingo para ele conhecer a rota.” Dei. Saímos cedo, pedalando no ritmo dele. Ele ficou quieto durante quase todo o percurso o tipo de silêncio de quem está processando algo que não esperava encontrar. No fim, disse, com o tom de quem está revisando internamente o que havia falado antes: “O trecho da Paulista é melhor do que eu imaginava.”

Não disse nada. Concordei e pedalei.

Quando você deixa o resultado falar por si mesmo, ele costuma ser mais persuasivo do que qualquer argumento que você poderia ter preparado.

A cidade que a gente nunca tinha parado para ver

Existe algo em ver a cidade de bicicleta que não tem equivalente de dentro de um carro. De carro, você está em um ambiente controlado temperatura regulada, som filtrado, velocidade escolhida. A cidade acontece do outro lado do vidro, como um cenário em movimento. De bike, você está dentro dela. O vento vem do mesmo lugar que o vento dos pedestres. Você ouve o mercado, o bar, a conversa em voz alta na calçada. Você cheira a padaria três quarteirões antes de ver a porta.

No domingo da “volta de reconhecimento”, quando chegamos em casa, meu marido ficou em silêncio por um tempo. Depois disse uma frase que eu não esperava: “A gente passa por aqui todo dia de carro e eu nunca tinha visto esse parque.”

Havia um parque de meia quadra, com árvores e um banco de madeira. Fica a duzentos metros do nosso trajeto habitual de carro, por uma rua que pegamos às vezes quando tem engarrafamento. Nenhum de nós dois havia visto, em quatro anos morando no mesmo bairro.

Aquilo ficou comigo por dias. Não como argumento para usar contra ele nada disso. Mas como lembrete de algo que eu estava esquecendo antes da e-bike entrar na nossa vida: a cidade tem camadas que o carro cancela. Não é que a gente não preste atenção. É que dentro do carro você está olhando para o carro da frente, para o GPS que está recalculando, para o sinal que vai fechar. A cidade fica desfocada porque a atenção tem que ir para outro lugar. De bike, você tem mais margem para olhar.

Reorganizamos o uso da bike sem que ninguém precisasse falar muito sobre isso. Ele usa de segunda a quarta trabalha mais perto e os horários funcionam melhor para ele. Eu uso de quinta e sexta, quando meu horário de entrada é um pouco mais tarde e pedalar fica mais prazeroso. Nos fins de semana, disputamos quem fica com ela para ir ao mercado, ao café, ao parque que nenhum de nós dois havia visto antes de sair do carro.

Na semana passada, ele trouxe um café cedo, sentou na beirada da mesa e disse, com a seriedade de quem está fazendo uma proposta para ser considerada com cuidado: que deveríamos comprar uma segunda bicicleta elétrica.

Não disse que era exatamente o que eu havia proposto seis meses antes, na mesma semana em que anunciei que ia comprar a primeira bicicleta elétrica.

Às vezes, o melhor argumento não é o argumento. É o resultado.

Às vezes a única forma de convencer alguém é deixar que o tempo faça o que as palavras nunca conseguiriam.

Não sou militante sou alguém que testou por um mês

Não vou te dizer que bicicleta elétrica resolve tudo, que todo mundo deveria largar o carro ou que São Paulo já é uma cidade plenamente ciclável. São Paulo ainda tem muito trabalho pela frente, e eu sei que a minha situação rota com boa cobertura de ciclovia, horário de trabalho com alguma flexibilidade, distância que se encaixou bem na autonomia da bateria não é a realidade de todo mundo que mora nesta cidade.

Mas sei o que aconteceu comigo.

Dei uma chance por um mês. Voltei no primeiro dia. E no segundo. E fui de novo na semana seguinte. A cidade foi se revelando de um jeito que eu não havia previsto não como um lugar perigoso que eu estava aprendendo a sobreviver, mas como um lugar que sempre teve muito mais para oferecer do que o vidro do carro havia me deixado alcançar.

Meu marido, que disse que eu estava louca, agora não esquece de perguntar se a bike está disponível antes de sair.

Não fica melhor do que isso.

Se você está ruminando alguma decisão que parece arriscada demais, cara demais ou complicada demais para a sua rotina atual talvez valha dar uma chance por um mês. Só para ver o que acontece. Aqui no Bem Mais Ativo, nós escrevemos sobre movimento, hábito e o que muda quando você decide testar em vez de planejar para sempre. Se quiser saber mais sobre as melhores bicicletas elétricas, acompanhe nossas publicações a cada semana, sem enrolação.

Marcos Jolbert
Marcos Jolbert

Sou especialista em bicicletas ergométricas, ciclismo e MTB, com foco em análise técnica, comparativos objetivos e orientação prática para treinos em casa e atividades ao ar livre. No Bem Mais Ativo, aplico conhecimento técnico aliado à experiência prática para avaliar desempenho, ergonomia, resistência e custo-benefício dos equipamentos, sempre com linguagem clara e informação confiável. Meu trabalho é ajudar pessoas a fazerem escolhas seguras, eficientes e alinhadas a uma rotina ativa, saudável e sustentável.

Saiba Mais